Domingo de Pentecostes

Posted in Amsterdã, Holanda with tags , , , on abril 12, 2011 by flaviowild

Domingo de Pentecostes em Amsterdã. A cidade de hoje é brilhante e ensolarada. Nos canais, as lanchas e os pequenos botes a motor conduzem pessoas que se bronzeiam – em suas faces multiplicam-se expressões de volúpia. Copos de cerveja dançam em volta das bocas em sorriso. Uma banda de música toca dentro de um dos barcos e os timbres prolongam-se na superfície da água, inspirando pensamentos aleatórios. Nenhuma outra cidade abriga tanta alegria de viver. Nenhuma outra demonstra tanta vontade. No Voldenpark, cada minuto prolonga-se por uma hora, tal a quantidade de apelos sensoriais que transcendem, para estacionar o tempo. Os lugares reúnem personagens que só Amsterdã consegue elaborar. E eles permanecem na memória como flores raras. O mundo se concentra em uma esquina qualquer do Joordan, sob os deliciosos aromas de uma cantina.

Mirtes II

Posted in Ficção on fevereiro 14, 2011 by flaviowild

Desperta com um relógio-cuco marcando cinco horas. O ambiente está escuro e ouve um ruído de passos no piso de cima. Um castiçal com uma vela ao lado da cama, sobre a qual você está deitado. Sente uma presença, alguma coisa ao alcance da mão estendida, entre as sombras das paredes, feito vultos humanos. Devagar, recupera o senso e um pouco da memória. Tenta levantar para descobrir onde está mas não consegue, como se um ímã lhe prendesse à cama. Toca na parede atrás da cabeceira e ela está úmida. Olha para cima e percebe uma inscrição. Pensa em todos os rostos que vira naquela casa antes de apagar, num esforço para aceitar o próprio arrependimento. Solta um grito, chama por alguém. Ouve uma pancada do lado de fora da porta como resposta. Consegue enfim levantar-se e vai até lá, mas está trancada. Do outro lado da peça há um banheiro que cheira mal. Seus dedos grandes e desajeitados tremem quando aperta o nariz para assoar em frente a pia. Molha o rosto. Vê o vaso cheio de fezes.

(…)

“Depois que eu for embora você deve vender a casa”, pediu sua mãe antes de morrer. A imagem do seu rosto magro, debilitada pela quimioterapia, sempre surge quando sente medo. Carregava uma expressão incomum, como se quisesse destruir as recordações materiais para aliviá-lo. Suas roupas ficaram muito tempo intocadas no armário. Evitava abri-lo. Pensou em pedir para alguém jogar tudo fora. Mas certa noite não conseguiu dormir e resolveu enfrentar a tarefa. Os perfumes que ela usava ainda estavam impregnados nas roupas. As blusas de seda, com diferentes estampas, exalavam fragrâncias cítricas e adocicadas, assim como a coleção de lenços. As saias de lã, os casacos de pele e os echarpes, tinham aromas florais, de jasmim, de rosas e gardênias. Em todas as peças, misturado aos perfumes, distinguiu o cheiro dela, de sua pele, e percebeu que aquele armário lotado era a reminiscência mais difícil de suportar. Quando finalmente vendeu a casa, pediu aos futuros moradores que dessem um destino para todos os pertences. Guardou apenas o vestido de linho pêssego que ela usou no último aniversário. Pendurou-o em seu roupeiro, na casa de sua avó, e aquilo passou a representar a única distância entre viver e estar morto.

Trechos da novela inédita “Os Pés do Pai”, do autor.

Mirtes

Posted in Ficção on janeiro 13, 2011 by flaviowild

 

De cima, a cidade de Mirtes não se consegue ver. Situada num vale e rodeada de montanhas rochosas, permanece oculta em suas vielas escuras, de casas barrocas. Há muitas estradas sinuosas que descem até lá. Pode-se encontrar um bando de bêbados remexendo em monturos de ferro-velho, ou uma concentração de lixo, capaz de bloquear o caminho. Algumas, sem bugigangas ou carroças abandonadas, são exclusivas para os pedestres. Construídas antes da fundação da cidade, as Avenidas Imperiais contornam desfiladeiros, proporcionando a melhor paisagem da região. Grandes pórticos de pedra, em forma de arco, recepcionam os visitantes em todas as entradas. A antiga Mirtes tornou-se intransponível. Os guardas, com suas armas, e também a população civil, recostavam-se nas trincheiras, atrás dos pórticos ou em pontos estratégicos. Atiravam nos invasores quando eles desciam as estradas. Essa posição privilegiada de defesa preservou a sua estrutura original de ruas e prédios. Manteve intacto o mapa psicológico dos habitantes.

– É a cidade em que se entra por cima! – bradou o tenente português Rivadávia de Albuquerque, ao fundar a praça circular que daria origem à cidade. Caçado pelo crime de deserção, embrenhou-se no vale com seu pequeno exército de comparsas. Não abandonou o lugar nem para morrer, tuberculoso, trinta anos após a fundação. Foi sepultado no cemitério municipal da então Vila Nossa Senhora de Mirtes.

(…)

A praça central ainda é o lugar onde se pode escutar, a qualquer hora, pedaços de diálogos. Nos bancos de madeira, no final da manhã, o lamento das beatas marcado por suspiros. A promessa vã dos amantes, à sombra dos ligustros. O burburinho dos camelôs, dos pipoqueiros. À noite, quando as famílias de albinos invadem a praça, é que se transpira real felicidade. Exercitam-se com entusiasmo guiados por suas cabeleiras brancas, sob a tênue luminosidade dos postes. Adaptam-se entre fortuitos transeuntes, testemunhando outros diálogos. O Centro de Tradições descreveria os passeios noturnos dos albinos como um dos costumes mais peculiares da cidade.

(…)

De todos os milhares de habitantes, uma centena não se vê. Habitam a rede de túneis e covas subterrâneas que interligam as fossas e o esgoto. Fora do alcance dos olhos, negociam drogas, pedras preciosas, e planejam sequestros. Os que moram na superfície perguntam-se até quando viverão sobre esse labirinto. Mas continuam, como se o peso de abandonar a cidade pudesse causar um futuro desventurado. Quem comparece todos os dias ao mercado de frutas, percebe no rosto de cada anciã, no olhar dos senhores aposentados, na conversa das velhas tias e viúvas, a certeza de uma idade em extinção. Os infortúnios permitem imaginar que sobreviver em Mirtes seja difícil demais.

Trechos da novela inédita “Os Pés do Pai”, do autor.

Seus rostos não dormem

Posted in Cuba, Havana on outubro 29, 2010 by flaviowild

 

Perla e Juanita saiam da escola de mãos dadas quando as fotografei, com as camisas alvas, saias de pregas com tirantes, os lenços de seda amarrados ao pescoço. Estavam preocupadas em voltar logo para casa no bairro de Vedado. Julio, Pepe e Miguel, que tocavam rumba no bar do Havana Club com alegria e olhos de run, viraram-se ao mesmo tempo para a rua atraídos por una bellísima señora. Seu Felício comprou um saco de laranjas após sair do trabalho na fábrica de charutos Partagás, e sentou num boteco de Habana Vieja para uma longa dose, como faz todo final de tarde. Dona Santa, na sacada, olhava para a rua a espera do filho mais velho que foi comprar fermento para o bolo. Dona Conceição, com seu melhor vestido florido, descansava na entrada do cemitério Colón após uma tarde de abandono e silêncio. Dona Bella, que não gostava do movimento dos turistas e suas câmeras fotográficas em passagem permanente na porta da sua casa, falava alto frases sem sentido como se organizasse um exército após a trégua. Mirassol veste a mesma saia roxa nos dias em que se prostitui para engordar o salário de professora na Escuela Primaria Julio Antonio Mella. E são todos eles tão íntimos, ao mesmo tempo inusitados, que sigo inventando seus nomes, misturando os motivos, decifrando as faces. Seus rostos não dormem, não morrem, e me olham pela porta, penetrando insistentes durante a vigília e o sono.

Viagem da janela

Posted in Ficção on setembro 22, 2010 by flaviowild

Janela de inverdades. Conto segredos nos teus ouvidos, todos os dias, sentado de costas em frente ao computador. Golpes rápidos, bofetadas de puro espanto. A luz do monitor reflete nos vidros, ilumina imagens invertidas, como um circo de informação e gente, e não mais identifico o que é tela, o que é janela. Vezenquando combato o vício da síncope diária com carícias, e a janela retribui com belos desenhos e alegres cotidianos. Nas noites de devastação do espírito, mesmo sem olhar através dos vidros, sinto o mau presságio, como se a janela preparasse uma tragédia – leve brisa adentro. Aguço o ouvido, sons de motos e pássaros. Tom Waits atravessa a sala na intensidade de um trem. Há uma pessoa sentada lá fora que sempre surge quando estou sozinho. Outras apenas passam para nunca mais voltar. Imagino a próxima exposição de luz. Sol, chuva, reflexos dos faróis dos carros espelhados no youtube. Hoje não trabalhei, viajei a noite toda pelo interior da Toscana, sentado. Bebendo Uccelliera Brunello di Montalcino.

Descendo a Tramuntana

Posted in Maiorca with tags , on agosto 26, 2010 by flaviowild

Parei o carro no povoado de Pollença, na Ilha de Maiorca, para um lanche rápido. Pelas ruas estreitas, com blocos de pedra e casario em cores amarelas, procurei um local razoável. Escolhi uma padaria, com magníficos sanduíches, cujo restaurante abria-se para um jardim interno, de reminiscências árabes. Através das janelas do lugar, observei a perspectiva dos telhados a afunilar contra as montanhas. Na estrada outra vez, subi a serra da Tramuntana em direção ao Monastério de Lluc, entre oliveiras centenárias e a companhia das cabras, a tilintar suas sinetas no acostamento. Deixei a rota paralela à costa e a dificuldade do trajeto era proporcional ao espetáculo do entorno. O traçado da estrada fora adaptado às singulares formas da pedra erodida. Gargantas, cavernas, penhascos desfilavam pelas janelas do carro, enquanto descia a Tramuntana. Antes de vencer os últimos metros do trajeto, já envolvido em um engarrafamento monstruoso, um guarda me interpelou: – Adelante es solo para autobuses – e estacionei o carro ali mesmo, completando as últimas curvas a pé. Comecei, então, a ouvir o som dos violoncelos, dos clarinetes sublimes a ecoar entre os rochedos. Em Torrent de Pareis, no meio de muita gente, atravessei um túnel escavado na pedra. A música tornou-se mais intensa. Ao sair do outro lado – onde uma orquestra tocava – estava em um vale, rodeado pelos monólitos gigantes. Na desembocadura de uma fenda, que tem sua apoteose quando, remansada, chega ao mar. Corri até a pequena praia, cor verde-esmeralda, à esquerda do palco e da orquestra. Já descalço, atravessei devagar o piso de seixos e mergulhei no mar Mediterrâneo. Fiquei boiando, a ouvir Chopin, enquanto a luz do sol de fim de tarde alaranjava os paredões de calcário.   

Cidade implausível

Posted in Estados Unidos, Nova York with tags , , , on agosto 3, 2010 by flaviowild

Qualquer cidade faz sentir saudade do que não mais existe. Em Manhattan, a oficina do bombeiro hidráulico e a lojinha de bebidas da vizinhança deram espaço às galerias de arte, às delicatessens de luxo e às butiques de grife parisiense, operando sob aluguéis impraticáveis. Na Broadway ou em Gramercy Park, onde se podia encontrar Paul Newman comendo um sanduíche, ou muito antes Greta Garbo com seu chapelão, vê-se agora pessoas sem charme falando aos gritos, em frente a uma fachada world style de Donald Trump. Há menos poetas e mais desenhistas de moda, menos visionários e mais curadores de arte deslumbrados. Menos privacidade em meio à multidão entrincheirada no Metropolitan, nas ruazinhas transversais do East Village entupidas de carros, nas longas filas de almoço de qualquer restaurante ruim de Downtown. Mas Nova York ainda é a mesma no Central Park, onde se pode passear sem pressa como antes e apreciar as torres do edifício da Madonna surgindo detrás das árvores. É a mesma dentro daquele velho e desconhecido restaurante vietnamita do Chelsea, ao qual se chega meio sem querer. Até o skyline da cidade, visto da ilha de Ellis, ainda é o mesmo, se imaginarmos que o imponente WTC não passou de delírio arquitetônico. Manhattan seguirá sua vocação vertical, obrigada a crescer para o céu pela ausência de qualquer outra direção. E o medonho manto de neblina que sempre desce de Nova Jersey continuará a esconder a luz da tarde, isolando os escritórios mais altos, numa iminente sensação de fim de mundo.
 
‘‘É um milagre que Nova York funcione. Se pensar bem, a cidade é implausível.’’ E. B. White