Domingo de Pentecostes

Posted in Amsterdã, Holanda with tags , , , on abril 12, 2011 by flaviowild

Domingo de Pentecostes em Amsterdã. A cidade de hoje é brilhante e ensolarada. Nos canais, as lanchas e os pequenos botes a motor conduzem pessoas que se bronzeiam – em suas faces multiplicam-se expressões de volúpia. Copos de cerveja dançam em volta das bocas em sorriso. Uma banda de música toca dentro de um dos barcos e os timbres prolongam-se na superfície da água, inspirando pensamentos aleatórios. Nenhuma outra cidade abriga tanta alegria de viver. Nenhuma outra demonstra tanta vontade. No Voldenpark, cada minuto prolonga-se por uma hora, tal a quantidade de apelos sensoriais que transcendem, para estacionar o tempo. Os lugares reúnem personagens que só Amsterdã consegue elaborar. E eles permanecem na memória como flores raras. O mundo se concentra em uma esquina qualquer do Joordan, sob os deliciosos aromas de uma cantina.

Mirtes II

Posted in Ficção on fevereiro 14, 2011 by flaviowild

Desperta com um relógio-cuco marcando cinco horas. O ambiente está escuro e ouve um ruído de passos no piso de cima. Um castiçal com uma vela ao lado da cama, sobre a qual você está deitado. Sente uma presença, alguma coisa ao alcance da mão estendida, entre as sombras das paredes, feito vultos humanos. Devagar, recupera o senso e um pouco da memória. Tenta levantar para descobrir onde está mas não consegue, como se um ímã lhe prendesse à cama. Toca na parede atrás da cabeceira e ela está úmida. Olha para cima e percebe uma inscrição. Pensa em todos os rostos que vira naquela casa antes de apagar, num esforço para aceitar o próprio arrependimento. Solta um grito, chama por alguém. Ouve uma pancada do lado de fora da porta como resposta. Consegue enfim levantar-se e vai até lá, mas está trancada. Do outro lado da peça há um banheiro que cheira mal. Seus dedos grandes e desajeitados tremem quando aperta o nariz para assoar em frente a pia. Molha o rosto. Vê o vaso cheio de fezes.

(…)

“Depois que eu for embora você deve vender a casa”, pediu sua mãe antes de morrer. A imagem do seu rosto magro, debilitada pela quimioterapia, sempre surge quando sente medo. Carregava uma expressão incomum, como se quisesse destruir as recordações materiais para aliviá-lo. Suas roupas ficaram muito tempo intocadas no armário. Evitava abri-lo. Pensou em pedir para alguém jogar tudo fora. Mas certa noite não conseguiu dormir e resolveu enfrentar a tarefa. Os perfumes que ela usava ainda estavam impregnados nas roupas. As blusas de seda, com diferentes estampas, exalavam fragrâncias cítricas e adocicadas, assim como a coleção de lenços. As saias de lã, os casacos de pele e os echarpes, tinham aromas florais, de jasmim, de rosas e gardênias. Em todas as peças, misturado aos perfumes, distinguiu o cheiro dela, de sua pele, e percebeu que aquele armário lotado era a reminiscência mais difícil de suportar. Quando finalmente vendeu a casa, pediu aos futuros moradores que dessem um destino para todos os pertences. Guardou apenas o vestido de linho pêssego que ela usou no último aniversário. Pendurou-o em seu roupeiro, na casa de sua avó, e aquilo passou a representar a única distância entre viver e estar morto.

Trechos da novela inédita “Os Pés do Pai”, do autor.

Mirtes

Posted in Ficção on janeiro 13, 2011 by flaviowild

 

De cima, a cidade de Mirtes não se consegue ver. Situada num vale e rodeada de montanhas rochosas, permanece oculta em suas vielas escuras, de casas barrocas. Há muitas estradas sinuosas que descem até lá. Pode-se encontrar um bando de bêbados remexendo em monturos de ferro-velho, ou uma concentração de lixo, capaz de bloquear o caminho. Algumas, sem bugigangas ou carroças abandonadas, são exclusivas para os pedestres. Construídas antes da fundação da cidade, as Avenidas Imperiais contornam desfiladeiros, proporcionando a melhor paisagem da região. Grandes pórticos de pedra, em forma de arco, recepcionam os visitantes em todas as entradas. A antiga Mirtes tornou-se intransponível. Os guardas, com suas armas, e também a população civil, recostavam-se nas trincheiras, atrás dos pórticos ou em pontos estratégicos. Atiravam nos invasores quando eles desciam as estradas. Essa posição privilegiada de defesa preservou a sua estrutura original de ruas e prédios. Manteve intacto o mapa psicológico dos habitantes.

– É a cidade em que se entra por cima! – bradou o tenente português Rivadávia de Albuquerque, ao fundar a praça circular que daria origem à cidade. Caçado pelo crime de deserção, embrenhou-se no vale com seu pequeno exército de comparsas. Não abandonou o lugar nem para morrer, tuberculoso, trinta anos após a fundação. Foi sepultado no cemitério municipal da então Vila Nossa Senhora de Mirtes.

(…)

A praça central ainda é o lugar onde se pode escutar, a qualquer hora, pedaços de diálogos. Nos bancos de madeira, no final da manhã, o lamento das beatas marcado por suspiros. A promessa vã dos amantes, à sombra dos ligustros. O burburinho dos camelôs, dos pipoqueiros. À noite, quando as famílias de albinos invadem a praça, é que se transpira real felicidade. Exercitam-se com entusiasmo guiados por suas cabeleiras brancas, sob a tênue luminosidade dos postes. Adaptam-se entre fortuitos transeuntes, testemunhando outros diálogos. O Centro de Tradições descreveria os passeios noturnos dos albinos como um dos costumes mais peculiares da cidade.

(…)

De todos os milhares de habitantes, uma centena não se vê. Habitam a rede de túneis e covas subterrâneas que interligam as fossas e o esgoto. Fora do alcance dos olhos, negociam drogas, pedras preciosas, e planejam sequestros. Os que moram na superfície perguntam-se até quando viverão sobre esse labirinto. Mas continuam, como se o peso de abandonar a cidade pudesse causar um futuro desventurado. Quem comparece todos os dias ao mercado de frutas, percebe no rosto de cada anciã, no olhar dos senhores aposentados, na conversa das velhas tias e viúvas, a certeza de uma idade em extinção. Os infortúnios permitem imaginar que sobreviver em Mirtes seja difícil demais.

Trechos da novela inédita “Os Pés do Pai”, do autor.

Seus rostos não dormem

Posted in Cuba, Havana on outubro 29, 2010 by flaviowild

 

Perla e Juanita saiam da escola de mãos dadas quando as fotografei, com as camisas alvas, saias de pregas com tirantes, os lenços de seda amarrados ao pescoço. Estavam preocupadas em voltar logo para casa no bairro de Vedado. Julio, Pepe e Miguel, que tocavam rumba no bar do Havana Club com alegria e olhos de run, viraram-se ao mesmo tempo para a rua atraídos por una bellísima señora. Seu Felício comprou um saco de laranjas após sair do trabalho na fábrica de charutos Partagás, e sentou num boteco de Habana Vieja para uma longa dose, como faz todo final de tarde. Dona Santa, na sacada, olhava para a rua a espera do filho mais velho que foi comprar fermento para o bolo. Dona Conceição, com seu melhor vestido florido, descansava na entrada do cemitério Colón após uma tarde de abandono e silêncio. Dona Bella, que não gostava do movimento dos turistas e suas câmeras fotográficas em passagem permanente na porta da sua casa, falava alto frases sem sentido como se organizasse um exército após a trégua. Mirassol veste a mesma saia roxa nos dias em que se prostitui para engordar o salário de professora na Escuela Primaria Julio Antonio Mella. E são todos eles tão íntimos, ao mesmo tempo inusitados, que sigo inventando seus nomes, misturando os motivos, decifrando as faces. Seus rostos não dormem, não morrem, e me olham pela porta, penetrando insistentes durante a vigília e o sono.

Viagem da janela

Posted in Ficção on setembro 22, 2010 by flaviowild

Janela de inverdades. Conto segredos nos teus ouvidos, todos os dias, sentado de costas em frente ao computador. Golpes rápidos, bofetadas de puro espanto. A luz do monitor reflete nos vidros, ilumina imagens invertidas, como um circo de informação e gente, e não mais identifico o que é tela, o que é janela. Vezenquando combato o vício da síncope diária com carícias, e a janela retribui com belos desenhos e alegres cotidianos. Nas noites de devastação do espírito, mesmo sem olhar através dos vidros, sinto o mau presságio, como se a janela preparasse uma tragédia – leve brisa adentro. Aguço o ouvido, sons de motos e pássaros. Tom Waits atravessa a sala na intensidade de um trem. Há uma pessoa sentada lá fora que sempre surge quando estou sozinho. Outras apenas passam para nunca mais voltar. Imagino a próxima exposição de luz. Sol, chuva, reflexos dos faróis dos carros espelhados no youtube. Hoje não trabalhei, viajei a noite toda pelo interior da Toscana, sentado. Bebendo Uccelliera Brunello di Montalcino.

Descendo a Tramuntana

Posted in Maiorca with tags , on agosto 26, 2010 by flaviowild

Parei o carro no povoado de Pollença, na Ilha de Maiorca, para um lanche rápido. Pelas ruas estreitas, com blocos de pedra e casario em cores amarelas, procurei um local razoável. Escolhi uma padaria, com magníficos sanduíches, cujo restaurante abria-se para um jardim interno, de reminiscências árabes. Através das janelas do lugar, observei a perspectiva dos telhados a afunilar contra as montanhas. Na estrada outra vez, subi a serra da Tramuntana em direção ao Monastério de Lluc, entre oliveiras centenárias e a companhia das cabras, a tilintar suas sinetas no acostamento. Deixei a rota paralela à costa e a dificuldade do trajeto era proporcional ao espetáculo do entorno. O traçado da estrada fora adaptado às singulares formas da pedra erodida. Gargantas, cavernas, penhascos desfilavam pelas janelas do carro, enquanto descia a Tramuntana. Antes de vencer os últimos metros do trajeto, já envolvido em um engarrafamento monstruoso, um guarda me interpelou: – Adelante es solo para autobuses – e estacionei o carro ali mesmo, completando as últimas curvas a pé. Comecei, então, a ouvir o som dos violoncelos, dos clarinetes sublimes a ecoar entre os rochedos. Em Torrent de Pareis, no meio de muita gente, atravessei um túnel escavado na pedra. A música tornou-se mais intensa. Ao sair do outro lado – onde uma orquestra tocava – estava em um vale, rodeado pelos monólitos gigantes. Na desembocadura de uma fenda, que tem sua apoteose quando, remansada, chega ao mar. Corri até a pequena praia, cor verde-esmeralda, à esquerda do palco e da orquestra. Já descalço, atravessei devagar o piso de seixos e mergulhei no mar Mediterrâneo. Fiquei boiando, a ouvir Chopin, enquanto a luz do sol de fim de tarde alaranjava os paredões de calcário.   

Cidade implausível

Posted in Estados Unidos, Nova York with tags , , , on agosto 3, 2010 by flaviowild

Qualquer cidade faz sentir saudade do que não mais existe. Em Manhattan, a oficina do bombeiro hidráulico e a lojinha de bebidas da vizinhança deram espaço às galerias de arte, às delicatessens de luxo e às butiques de grife parisiense, operando sob aluguéis impraticáveis. Na Broadway ou em Gramercy Park, onde se podia encontrar Paul Newman comendo um sanduíche, ou muito antes Greta Garbo com seu chapelão, vê-se agora pessoas sem charme falando aos gritos, em frente a uma fachada world style de Donald Trump. Há menos poetas e mais desenhistas de moda, menos visionários e mais curadores de arte deslumbrados. Menos privacidade em meio à multidão entrincheirada no Metropolitan, nas ruazinhas transversais do East Village entupidas de carros, nas longas filas de almoço de qualquer restaurante ruim de Downtown. Mas Nova York ainda é a mesma no Central Park, onde se pode passear sem pressa como antes e apreciar as torres do edifício da Madonna surgindo detrás das árvores. É a mesma dentro daquele velho e desconhecido restaurante vietnamita do Chelsea, ao qual se chega meio sem querer. Até o skyline da cidade, visto da ilha de Ellis, ainda é o mesmo, se imaginarmos que o imponente WTC não passou de delírio arquitetônico. Manhattan seguirá sua vocação vertical, obrigada a crescer para o céu pela ausência de qualquer outra direção. E o medonho manto de neblina que sempre desce de Nova Jersey continuará a esconder a luz da tarde, isolando os escritórios mais altos, numa iminente sensação de fim de mundo.
 
‘‘É um milagre que Nova York funcione. Se pensar bem, a cidade é implausível.’’ E. B. White

Memórias de lata

Posted in Inspiração on julho 13, 2010 by flaviowild

Todo ônibus que passa exibe rostos inocentes. As janelas vistas por fora são como telas, enquadramentos de lata e pintura. Em cada expressão, para cada gesto humano, somam-se os cheiros bons e ruins, ruídos e conversas, trepidação. Há rostos que olham para fora sorrindo, enquanto outros se escondem. Todos têm um trabalho, um amor, convivem com seu delírio e sua culpa. Mas durante a viagem dentro da lata não são ninguém. Não pensam em nada. O tempo que dura o deslocamento de um lugar para outro, o instante do trânsito, é sempre um recorte de espírito. Cada anônimo que se exibe fugaz na janela carrega um desejo. Quando desembarca, ele nunca mais será o mesmo. Os bancos dos ônibus capturam todas as memórias, e todos os segredos.

À Deriva no Rio da Existência

Posted in Inspiração with tags , on julho 6, 2010 by flaviowild

“abandonar tudo. conhecer praias. amores novos

poesia em cascatas floridas com aranhas

azuladas nas samambaias.

todo trabalhador é escravo. toda autoridade

é cômica. fazer da anarquia um

método & modo de vida. estradas.

bocas perfumadas. cervejas tomadas

nos acampamentos. Sonhar Alto.”

 

Roberto Piva (1937-2010)

Saramago. Uma outra viagem

Posted in Inspiração on junho 18, 2010 by flaviowild

“A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:
‘Não há mais o que ver’, sabia que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.”

José Saramago (1922-2010)

Homem com a sombra nos olhos

Posted in Bento Gonçalves, Brasil with tags , on junho 14, 2010 by flaviowild

O Sr. Bertarello tem 92 anos. Em todo esse tempo, poucas vezes saiu de sua terra. Orgulhava-se de nunca ter ido a ‘América’ – mais recentemente teve de viajar até lá para tratar da saúde. O nonagenário sobe e desce todos os dias os caminhos de sua propriedade, onde funciona um moinho que produz farinha de milho. Esta é sua fronteira.
José Saramago disse que viajar é deslocar-se para um lugar onde possamos descobrir que há, em nós, algo que não conhecíamos. Italo Calvino escreveu que o viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve, e o que não terá. O Sr. Bertarello não descobriu. Mas, talvez, essa inconsciência seja necessária à sua longevidade. Vive tranquilo um homem com a sombra nos olhos.

Esse é o Lugar

Posted in Kho Phi Phi, Tailândia with tags , on junho 1, 2010 by flaviowild

Numa linda manhã de sol, dentro de um long-tail, rumei à praia de Maya Bay. O condutor do barco era um nativo com poucos dentes e que falava apenas seis palavras em inglês: yes, no, jumping, snorckeling, food e drink. Deixamos o píer da ilha de Kho Phi Phi Don em direção à primeira parada, Monkey Beach. Legais os macacos andando pela praia e comendo os pedaços de abacaxi ofertados pelos barqueiros. Havia macacos velhos, macacos novos e até bebês mamando. Tirei uma foto de um deles e ele veio na minha direção e arrancou os meus óculos escuros tão rápidamente que não consegui impedir. Correu por entre as rochas, em espaços que só ele cabia e sumiu. Deve ter percebido a utilidade do acessório.
O barco rumou até alto-mar e parou para um mergulho. – Snorckeling! – ordenou o nativo repetidas vezes. Os corais eram espetaculares, multicoloridos. Mas só após o mergulho ele revelou, por mímica, que ali era ponto de tubarões.  
Quando chegamos à famosa Maya Bay, percebi que estávamos atrás da baía. O cara ancorou o barco do outro lado, e tive de nadar uns 100 metros, subir por uma perigosa escada de cordas pela rocha, para então, a pé, alcançar a almejada praia. E valeu o esforço! O sol de fim de tarde era intenso e a água do mar estava quente. Nem precisei dos óculos escuros que o macaco roubou para perceber que ali era o lugar mais belo do mundo!

Statue du l’acteur grec

Posted in França, Paris with tags , on maio 19, 2010 by flaviowild

No Jardins du Luxembourg, um homem sinistro abordou a minha mulher. Eu estava um pouco afastado dela, fotografando, e percebi que ele falava coisas incompreensíveis. Não era em francês, não era  em inglês. Parecia turco. Aproximei-me um pouco e compreendi apenas a palavra louvre, sussurrada em meio às outras palavras sem sentido. Repetia sempre a mesma frase. Seu olhar era estranho e não se detia em nenhum ponto. Chegou mais perto dela, gesticulando com as duas mãos, e então resolvi intervir! Tirou um pedaço de papel do bolso de seu sobretudo e me entregou: era uma espécie de certidão de aposentadoria por invalidez, como arquivista de museu. Estendeu o braço e apontou para o outro lado do parque, agora murmurando uma nova frase, como se pedisse para que entregássemos aquele documento no Museu do Louvre. Com os braços abertos, um mais alto que o outro, se parecia com a estátua do ator grego que estava ao nosso lado, após um acidente vascular cerebral. Demorei para fazê-lo compreender que não levaria o documento, pois não entendia a razão daquele pedido. Ele pegou de volta o papel e rasgou em quatro pedaços. Um colocou no bolso, outro jogou no chão, e os restantes devolveu para cada um de nós. Foi embora caminhando na direção do Pantheon, enquanto nos xingava em turco.

Reflexões de morte

Posted in Ficção on maio 12, 2010 by flaviowild

As ruas são lugares de encontros e desastres. Da mesa de um bar, no qual se bebem muitas cervejas, pode-se assistir a um atropelamento. Qualquer cidade, com seus reflexos nos vidros e paredes pichadas, é um território de todos, e de ninguém. O beijo entre duas meninas representa muito num curto espaço, e se houver música em volta o significado se amplia. A briga entre dois caras na esquina, em frente a boate, é um intervalo de morte. Distância e proximidade se contrapõem na idéia de vizinhança. Uma reunião de condomínio, em Paris, Londres, ou Porto Alegre, é o mesmo instante estéril, revelador do que há de pior no caráter humano. Todos os habitantes precisam conviver com essa teimosa perspectiva de aniquilação, pois a morte de alguém não faz nenhuma diferença no todo da cidade. O indivíduo é nada, embora apenas ele faça sentido.

Os heróis do túnel

Posted in Alemanha, Berlim with tags , on maio 6, 2010 by flaviowild

Não há nada mais estranho do que uma cidade dividida. O conceito de cidade não aceita essa condição, pois pressupõe um território único habitado por pessoas de mesma identidade. Vinte e oito anos não pesam no curso da história, mas em forma de muro, representam uma espera insuportável. Quantos imaginaram a idéia de um túnel como símbolo de liberdade? 60 pessoas em outubro de 1964 protagonizaram a fuga mais espetacular da antiga RDA: 30 jovens berlinenses trabalharam até o esgotamento – pálidos, feridos e suados – em meio a pedras, cacos e ferramentas. Escavaram um buraco de 11 metros no porão de uma padaria desativada, e então deram início ao túnel que avançaria por 140 metros embaixo de casas e ruas até o lado Ocidental. Gostaria de ter ajudado nessa escavação. Ter sofrido todas as consequências físicas desse esforço, apenas pelo doce prazer de sair do outro lado do muro e olhar para trás. Ao som do alarme e do estampido dos tiros. Apenas pela satisfação desse sorriso roubado.

Entrevista com Flávio Wild no Programa Estação Cultura da TVE

Posted in Ficção on abril 30, 2010 by SextaSessão

Entrevista com Flávio Wild no Programa Falando da TVCOM

Posted in Ficção on abril 30, 2010 by flaviowild

Entrevista com Flávio Wild no Programa Gente da TVCOM

Posted in Ficção on abril 29, 2010 by SextaSessão

Flâneur em Playa Bávaro

Posted in Punta Cana, República Dominicana with tags on abril 27, 2010 by flaviowild

 

A melhor coisa a fazer numa viagem é observar os moradores. Observar com o espírito vagabundo de um flâneur, cheio de curiosidades malsãs. O real espírito de um lugar desvenda-se no perambular aleatório de cada criatura. Na paradisíaca Playa Bávaro, há o pescador que dorme enquanto espera a hora do barco, e a mulata que aborda turistas oferecendo prazerosas massagens. Uma menina sorri com simpatia, um garoto olha com a expressão desconfiada. Todos carregam na mente mil pensamentos imprescindíveis. O cenário exerce uma excitação contínua, a beleza não se apaga, e os deveres permanecem eternamente adiados. Até o guarda, orgulhoso de sua autoridade, posa para a fotografia com a arma erguida, como não faria em qualquer outro lugar. Pudesse ficar nessa praia pelo resto da vida, subvertendo as urgências, apenas em alma! Rodeado por dominicanos e pelo mar azul turquesa. Dormindo sob a sombra de um coqueiro, sem querer, para despertar logo depois com uma voz suave e morna na orelha.

O Sorriso de Fiona

Posted in Ficção on abril 22, 2010 by flaviowild

“A dona da pensão, em Edimburgo, cozia ovos mexidos com cogumelos quando chegamos muito cedo pela manhã. O aroma do cozido era intenso e espalhou-se num instante ao longo da habitação de dois pisos. Fiona – como se apresentou – cobrou adiantados todos os pounds de nossa estadia e nos acompanhou até o dormitório no andar de cima. O papel de parede tinha estampa em azul e branco. Combinava com os lençóis e travesseiros, em tom mais escuro. O chuveiro era dentro de uma das portas do armário embutido. Parece que tudo foi decorado há pouco tempo, sussurrou Laura. O aroma daquela comida logo inundou também o dormitório, misturado ao perfume doce dos edredons. Pela janela, que dava para o interior do quarteirão, uma pequena floresta de carvalhos, amarelados pelo amanhecer outonal. Um carro coberto por gelo com um homem dentro, deitado. O tempo lá fora, de tão frio e lento, transpirava em gotas congeladas, enquanto as velhas paredes de pedra da casa suavam sobre a calefação.”

(trecho do conto “O Sorriso de Fiona”, do livro “Silêncio em Siena“) 

O Engano de Morar

Posted in Ficção on abril 18, 2010 by flaviowild

“Conheci Janus em uma loja de temperos e essências no Bairro Judeu de Praga. A loja ficava na praça interna de um quarteirão, entre casas barrocas. Laura puxou conversa com ele quando o viu com o cestinho cheio de manjericão seco, sálvia, alecrim. Um punhado de raízes embrulhado em jornal e muitos envelopes de açafrão. Carregava também pimenta-do-reino, sementes de papoula e potes com essência de uvas-do-monte. Tinha a aparência de um alquimista em meio a tantos condimentos: vestia-se de branco, tinha os cabelos grisalhos e usava uma kipá como adorno.
Janus era proprietário de um restaurante no bairro Malá Strana. Do outro lado do rio, no caminho que sobe em direção ao Castelo, fez questão de reforçar. Entregou-me um folheto com o endereço. Apareçam, e pagarão apenas a bebida, convidou. Ofereci ajuda, mas ele respondeu que estava acostumado. Despediu-se e saiu da loja carregando quatro sacolas pesadas.”

(trecho do conto “O Engano de Morar”, do livro “Silêncio em Siena“)

“Quando viajamos, exercitamos uma concentração voraz. Uma atenção paranoica. Nenhuma fagulha escapa do olhar inaugurador, qualquer movimento é importante, eletivo. Uma fachada destruída de uma casa transforma-se em enigma, um velho coçando o queixo é visto como um profeta, uma criança pedindo a mão é quase um sinal messiânico, uma conversa cruzada é reconhecida como insinuação de um assassinato.
Em seu livro de estreia,
Silêncio em Siena, Flávio Wild reúne suas andanças por 15 cidades da Europa. Apesar de exaustivamente conhecidas, como Paris, Veneza e Madri, são cidades invisíveis, para lembrar a obra de Italo Calvino. Invisíveis porque são mais imaginadas do que observadas. Tal como o aventureiro Marco Polo, protagonista de Calvino, Wild vai perdendo Porto Alegre em todo sítio que visita. É menos aquilo que vê e mais aquilo que compara. Numa crescente operação de desfalque. Sua ficção é o turismo ao avesso.”
‘Uma cidade sempre se deixa, enquanto a próxima não existe ainda.’

(trecho do prefácio de Fabrício Carpinejar)

Silêncio em Siena

Posted in Ficção on abril 15, 2010 by SextaSessão

O livro “Silêncio em Siena” foi lançado na última terça-feira no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. A obra reúne 15 contos e 75 fotos ambientados em cidades européias. A exposição de 16 fotos do livro permanece no local até o dia 27 de abril.

Para compra on-line, clique aqui.

Abaixo, o trecho de um dos contos.

“Véspera do Palio, noite de verão aos pés de Siena. As ruas de ontem são hoje e para sempre. Pessoas sem rosto, sem data. Cruzei a Piazza Il Campo vigiado pela terracota dos palácios: o piso de ladrilhos oblíquos, sua forma igual a concha de um molusco. Fachadas de pedra ocre enfeitadas por célebres janelas. Bandeiras tremulam nos nichos, nas sacadas. Vermelhas, azuis, brancas. E pelas balaustradas os pombos do tempo, infatigáveis, vigiam aquele céu, aquela terra, em nome de um Deus piedoso.
Dentro das muralhas da cidade, nas praças, pelas ladeiras estreitas, não se distingue morador ou visitante. Difícil encontrar nesse cenário aquele que nada sabe e vai percorrer o mesmo caminho todos os dias, insensível ao lugar. Os que andam por Siena não conhecem hábito e rotina. Possuem no olhar um êxtase. São viajantes imóveis, penetrando nos instantâneos imaginários. Porque é Siena quem captura qualquer alma humana e a faz saborear as ruas pedregosas, os degraus, o fino silêncio medieval, como se todos fossem filhos.”

(trecho do conto “Silêncio em Siena“)

A puta do sótão

Posted in Amsterdã, Holanda with tags , on março 31, 2010 by flaviowild

No bairro Red Light são famosas as vitrines onde prostitutas se exibem para os turistas. Há vitrines com negras gordas e peitudas, outras com falsas loiras turcas de botas brancas. Há vitrines vazias e aquelas com as cortinas fechadas. Quanto mais escondido o lugar, mais bonita a mulher. Foi um brasileiro que trabalha na construção civil de Amsterdã que explicou como chegar no local mais concorrido. Era uma ruelinha com menos de dois metros de largura e difícil de achar, movimentada de consumidores e curiosos. E o produto era mesmo de primeira. Fiquei um tempo por lá, indo e vindo. Numa rua próxima, costeando um canal, uma mulher resolveu inovar: ao invés da vitrine, instalou-se no sótão de um prédio. Mas como o cliente acertaria o programa? Talvez devesse ser içado pelo gancho até o topo, aproveitando a inclinação da fachada, como fazem para transportar os móveis aos andares superiores das casas. Evitaria que o sujeito, cansado na volta, se acidentasse nas escadarias estreitas e íngremes.

Buda em pé, Buda reclinado

Posted in Bancoc, Tailândia with tags , , on março 24, 2010 by flaviowild

Há uma infinidade de imagens de Buda em Bancoc, e a população se orgulha muito de todos eles, revelando uma incrível religiosidade. A melhor forma de conhecê-los é por meio dos motoristas de tuk-tuk. Combina-se um valor único pelo tour. Há o maior Buda em pé, e o maior Buda reclinado – o maior em pé e dentro de um templo, o maior reclinado em área externa. Há também o menor Buda em pé, e o menor Buda reclinado – o menor em pé e dentro de um templo, o menor reclinado em área externa. Pode-se levar até dois dias inteiros para conhecê-los. A cada entrada em um templo, deve-se tirar os sapatos e deixá-los em prateleiras do lado de fora. O mais impressionante que vi é o Buda reclinado do palácio de Wat Pho. Fiquei muito tempo lá dentro apreciando os detalhes em ouro, os pés cuidadosamente talhados. É tão grande que mal cabe dentro do templo, como se a construção fosse erguida em torno dele. Quando saí, não havia mais ninguém no palácio, e os meus sapatos haviam sumido da prateleira. Restava apenas um par, de estilo indiano, parecido com os sapatos do Aladim. Passei o resto do dia com aquilo nos pés, como um idiota com síndrome de gênio, a misturar todos os Budas.

É pulga ou…

Posted in Estados Unidos, Nova York with tags , on março 15, 2010 by flaviowild

Foi no Museu de História Natural que a coceira começou. Estava em frente aos esqueletos dos dinossauros. Cocei atrás do pescoço e nas costas. Pensei que fosse uma reação da pele à calefação do museu, mas a coceira era localizada, como picadas de pulga. Depois que sai de lá, tive que procurar uma farmácia para comprar antialérgico. Difícil explicar ao farmacêutico. Mostrei as pequenas feridas e ele me vendeu uma pomada. Durante o resto do dia, notei que o remédio era inócuo, a coceira piorava. Então voltei ao hotel Pensilvânia, onde estava hospedado, para tomar banho e ver se melhorava. Água quente, sabonete de alfazema e shampoo vagabundo. À noite, quando deitei, estava um pouco melhor. Mas na manhã seguinte, a coceira tinha se espalhado por outras partes do corpo: braços, pernas, barriga e tornozelos. Decidi procurar o seguro saúde e levantei, certo de que a minha viagem estava comprometida. Quando sentei na cama, percebi pequenos círculos escuros em torno do travesseiro. Toquei num deles e a coisa se mexeu! Recolhi o inseto e o levei a um posto de saúde na Quinta Avenida. A funcionária que me atendeu falava espanhol e garantiu que era um percevejo! A motherfucker, jamais hospede-se no hotel Pensilvânia!

Piscinas no Texas?

Posted in Espanha, Ilhas Canárias with tags on março 10, 2010 by flaviowild


As onças pintadas que seduzem turistas americanos na beira da piscina do resort são selecionadas com capricho. O negócio é forçá-los a pousar para fotografias agarrando as moças, e que depois serão vendidas por 20 dólares. Eles pagam o preço para tirar proveito da situação e levar o flagrante do amasso para seus ranchos no Texas. Um deles, que já havia bebido muitos daiquiris, agarrou a moça de maneira exagerada colocando a mão entre as suas pernas. Ela se virou e deu um empurrão no cara, enquanto dizia: “Puta madre!” O yankee bêbado desferiu xingamentos e partiu para cima do fotógrafo, agarrando na lente da câmera. Apesar de seus maus modos, o que foi mais difícil de aceitar era vê-los o dia inteiro deitados ao redor da piscina, avermelhando as barrigas inchadas, com a praia paradisíaca a apenas alguns passos, dando sopa. Então para que viajar até Tenerife? Não seria melhor construir piscinas no Texas?

Ratos do Malecón

Posted in Cuba, Havana with tags , , on março 9, 2010 by flaviowild

 

Nem todas as cidades permanecem para sempre na memória. Algumas escapam pouco tempo depois, outras sobrevivem por apenas um par de anos. Existem cidades que nos repelem; existem cidades que atraem sem fazer esforço. Nos fundos do Hotel Nacional, com a visão da orla e a bandeira cubana tremulando, não existe escolha para o forasteiro atento. Tudo combina com perfeição: a música de Compay II, o sorriso dos alegres habitantes, a beleza da paisagem que oscila com o vento do Norte, explodindo em ondas gigantes contra o Malecón. Fumar um puro Cohiba em meio às galinhas d’angola que perambulam pelo pátio do hotel, beber um mojito na Bodeguita del Medio como fazia Hemingway, proporcionam alegria e tristeza, como se o tempo permanecesse estático. Até mesmo os quarteirões com ratos e casas desmontadas ao longo de Habana Vieja enchem de beleza o espírito do visitante. E o fazem apreciar os pequenos encontros, as festas de aniversário no interior dos cortiços, as meninas com uniformes engomados que retornam das escolas. Existe um ponto de encontro em todos os olhares alegres e desesperados da cidade, uma única razão para viver e suportar as ausências. Quando se escuta o Chan chan, quando se visita a fábrica de charutos Partagás ou o Museo de la Revolución, percebe-se que tudo ali se transformará um dia, como se aquela cidade fosse a única a preparar uma nova e surpreendente história. Todas as tardes ensolaradas em qualquer lugar, durante o resto da vida, serão como reflexos de pequenos instantes em Havana.

Múmia de tamancos vermelhos

Posted in Inglaterra, Londres with tags , , on agosto 20, 2009 by flaviowild

Múmia no British Museum

Visitei uma exposição no British Museum de peças arqueológicas da antiga Mesopotâmia. Lá pelas tantas, surgiu uma múmia. Morreu em combate há três mil anos e seu corpo foi preservado dentro de uma camada de âmbar. Estava de lado, com a bundinha pra cima. E dava até para ver o pinto. A testa descascada como um caroço de abacate, uma das mãos tapando o rosto. Parecia iluminada pela cor laranja do âmbar. Em pé, um rapaz estranho de tamancos vermelhos e calça marrom desenhava o corpo. Quando voltei depois de visitar toda a exposição, encontrei o rapaz ainda lá, agachado encarando os genitais. Passei por trás dele para espiar o desenho. Era muito bom! Construía uma história em quadrinhos protagonizada pela múmia. Acompanhei o desfecho: “levantou-se, quebrou o vidro da vitrine e correu pelas salas, aterrorizando todos. Dominou os guardas que se aproximaram, tomando-lhes as armas, e assaltou a biblioteca na entrada do museu! Mas não conseguiu escapar pela porta eletrônica, pois tinha encravado nas costas um pedaço da lança de metal. Foi imobilizado por um homem gordo e forte e se despedaçou…” Como recompensa pela minha curiosidade, fui presenteado com a última página da história.

Moça olhando Miró

Posted in Espanha, Maiorca with tags , , on agosto 13, 2009 by flaviowild

  Península de Formentor

Dirigir pela estrada sinuosa que leva à ponta da península de Formentor é uma aventura. O caminho é muito estreito e não há acostamento. Qualquer vacilo do motorista pode fazer o veículo despencar dezenas de metros até o mar. Fiquei tenso! A paisagem era deslumbrante mas a altura provocava vertigem. O calor era muito forte e suava até nas palmas das mãos. Decidi não olhar mais para os lados. Os carros que voltavam pela outra pista davam a impressão de que não conseguiriam passar, buzinavam e percebi que dirigia quase sobre a faixa amarela. Numa curva um dos pneus saiu fora do asfalto fazendo saltar pedregulhos. Controlei o carro com esforço e segui, meio tonto, até o farol no fim do caminho. Estacionei e senti um forte alívio, sem querer pensar no trajeto de volta. Ao subir no terraço, em frente ao farol, avistei uma bela moça de vestido azul que olhava a imensidão apoiando-se na balaustrada. Imóvel, como se apreciasse uma tela de Miró. Puxei conversa e descobri que ela estava sozinha. Morava na cidade de Palma e me pediu uma carona. A volta prometia ser ainda mais perigosa: a paisagem, a estrada e aquele par de coxas à mostra no banco do lado.

Brasileiros na neve

Posted in Canadá, Toronto with tags , , on agosto 12, 2009 by flaviowild

À beira do lago Ontário

Caminhava no píer à beira do lago Ontário quando começou a nevar. O lugar estava deserto e os galhos secos das árvores rapidamente esbranquiçaram. Andei rápido pois o vento que soprava do lago era muito frio. Então surgiram dois homens ao meu lado, com gorros de lã que tapavam o rosto, apenas os olhos à mostra. Caminhavam seguindo o meu ritmo. De início achei que era alguma brincadeira. “Where are you going man?”, um deles perguntou, em tom grave, oferecendo um cigarro. “I don’t smoke”, respondi, aumentando o passo. Seguiram mais um pouco falando coisas incompreensíveis e então agarraram os meus braços. Levaram-me até a beira d’água e ameaçaram me jogar: um deles anunciou o assalto! Tinha pouco dinheiro na carteira e ofereci tudo, assustado. Não quiseram o dinheiro mas pegaram o meu passaporte.“Ele é do Brasil”, o outro cochichou em português, com cara de espanto. Olharam-se constrangidos e saíram correndo, sem dizer mais nada. Sentei num banco e fiquei alguns minutos imóvel, olhando a neve. Feliz e triste por ser brasileiro.

Cuidado com o hamish!

Posted in Escócia, Loch Ness with tags , , on agosto 9, 2009 by flaviowild

Hamish, interior escocês

Atravessar o conjunto de sinistras montanhas chamado Glen Coe, durante a viagem ao Loch Ness, só fez aumentar a expectativa sobre o lendário monstro. Dizem que, após alguns copos de uísque escocês, é possível ver o bicho com o pescoço para fora d’água. Em meio ao caminho e a histórias de antigos reis, o ônibus parou para o lanche dos turistas. Ao descer, fui olhar um hamish. Ele veio a mim com aquela cara de Elton John. Quase pude ouví-lo cantando “Rocket man“. Achei-o simpático, tranquilo até, e mexi na sua franja dourada para poder ver os olhos. O animal ficou furioso: mostrava os dentes e babava, tentou derrubar a cerca e bateu com os chifres no meu ombro! Pude então ver seus olhos de raiva. Muita gente saiu do restaurante para acompanhar a confusão. O hamish não parava, agitado, arfando. Um homem o laçou pelo pescoço e conseguiu afastá-lo. Mas para quem esperava encontrar o monstro de Loch Ness, este havia chegado antes, sem nenhum gole de uísque.

Rolando perucas

Posted in Argentina, Buenos Aires with tags , , on agosto 1, 2009 by flaviowild

Vitrine em Pallermo Viejo

Entrei num antiquário do bairro de Pallermo Viejo. Ao meu lado, uma mulher experimentava uma peruca. Olhou-se no espelho e me perguntou o que eu achava. Tentei ser gentil: “Muy linda, señora”. “Usted es un mentiroso! Esta horrible!”, ela retrucou. Continuei a olhar os chapéus e os óculos estranhos em volta, fingindo não ter ouvido. Aliás, tudo era muito estranho naquela loja, a começar pela atendente, que aparentava mais de 80  anos e ficava sentada numa cadeira de balanço, apenas olhando os clientes. Se resolvesse comprar alguma coisa, queria ver como a velhinha faria para processar a antiga caixa-registradora. A cliente trocou de peruca e de novo voltou a me perguntar. Não sei ser grosseiro, mas resolvi dizer: “Se quedó horrible, señora.” Ela deu um grito de satisfação, enrolou o cachecol no pescoço e disse à atendente que não precisava embalar, pois sairia usando a peruca. Então a velhinha chamou: “Martin, viene!” Surgiu um senhor muito magro, que parecia ter mais de 90 anos e vestia um pijama. Errou o troco e a cliente reclamou, mas ele não voltou atrás e disse que estava certo. A mulher arrancou a peruca da cabeça e atirou-a contra a vitrine, fazendo balançar uma gaiola de passarinhos. Por segurança, não comprei nada, apesar do nome da loja querer provar o contrário.

Acordei em Marte

Posted in Havaí, Maui with tags , on julho 15, 2009 by flaviowild

Vulcão Haleakala

Desci na cratera do vulcão extinto Haleakala. A três mil metros de altitude e do tamanho da ilha de Manhatan, foi usada para treinamento dos astronautas que foram à lua e leva dois dias de caminhada para ser vencida. No início, andei com todo o fôlego, distraído com as plantas curiosas que nascem na aridez, a perspectiva de tonalidades avermelhadas, os cones por onde saía a erupção. De repente, fiquei sem ar. Senti que não ia conseguir voltar. Sentei na terra cinza, sentindo o frio que aumentava, e entrei em pânico. “Vou morrer aqui”, pensei. Foi quando surgiram duas sombras, movendo-se devagar e sem foco: era um casal de Miami. Eles me enrolaram num cobertor, tentaram me acalmar e convidaram para seguir com eles, prometendo ir devagar. Estavam preparados, com barraca e sacos de dormir nas mochilas. Não tive dúvida, era ir ou ficar pra congelar. Quando anoiteceu, já no meio do caminho, armamos a barraca e fizemos uma fogueira, que teimava em apagar pela forte ventania. Nuvens entraram no vulcão e a noite ficou turva. Ao amanhecer, o sol dissipou o nevoeiro e a temperatura aumentou muito. Foi como acordar em Marte.

Repolho na praia

Posted in Cuba, Varadero with tags , on julho 9, 2009 by flaviowild

Praia de Varadero

Viajar no sistema all inclusive é divertido. Você se hospeda e esquece a dieta rotineira a fim de todos os tipos de bebidas, comidas e sorvetes. Beber quantos mojitos quiser no intervalo de cada mergulho, daiquiris à beira da piscina, almoçar duas ou três vezes ou quanto couber. Nos dois primeiros dias mandei ver porque tudo é uma festa em Varadero. No terceiro estava com preguiça de voltar ao hotel e resolvi almoçar no restaurante da praia. Peixinho grelhado, batatas souté, alface tomate e repolho. O chopinho direto da torneira. Meia hora depois, um alien queria saltar pra fora do estômago. Pensei em resolver o problema dentro d’água, mas seria de uma incrível deselegância. Então, caminhei para o hotel meio curvado a segurar o bicho louco. Esperei o elevador, subi, dei a vez pro velhinho que estava na minha frente e cheguei à porta do quarto quase parindo. Introduzi o cartão magnético e nada, de novo e de novo e a porta não abriu. Olhei para a escada de incêndio e decidi que seria ali. Mas eu poderia ser flagrado. Respirei fundo, contraí os intestinos e desci à recepção para trocar o cartão. A funcionária disse que o meu check-out fora antecipado por engano, por isso o maldito não abria. E conversa vai e conversa vem e não consegui mais segurar. Naquela linda tarde de sol não voltei para a praia, com medo de que o repolho voltasse a atacar.

Monges usam cuecas?

Posted in Kanchanaburi, Tailândia with tags , on julho 9, 2009 by flaviowild

Monge no Tiger Temple

Monge é aquele sujeito que mora num mosteiro, se isola da sociedade e leva uma vida austera. Sempre pensei que todos fossem assim, mas os monges tailandeses do Tiger Temple surpreenderam. São tatuados, os olhos maquiados, têm celulares com câmera digital e tela touch screen e gostam de fotografar só as mulheres. Paguei 500 bahts pelo ingresso que dá direito ao contato íntimo com os tigres. É possível passar a mão na barriga, acariciá-los, beijá-los e até pegar os rabos. Um dos monges me sugeriu tocar nas bolas do macho, mas declinei. Outro monge disse que eu poderia beijar o focinho do animal e deu um longo beijo para demonstrar. Os tigres estavam estranhamente quietos e, cá entre nós, pareciam chapados. Dei o beijo. Foi como beijar um cachorro. Outras pessoas foram convidadas a fazer o mesmo, e, para cada um, o monge fazia a demonstração. Depois que todos saíram, vi o religioso limpar a boca com o hábito cor-de-laranja. E o despreendimento do espírito? Não sei se monges usam cuecas, mas no Tiger Temple devem vestir Calvin Klein.

Dormir em botel

Posted in Amsterdã, Holanda with tags , on julho 6, 2009 by flaviowild

Botel em Amsterdã

Hospedei-me em um botel por três dias e me impressionou dormir num quarto que balança, como se viajasse parado. Na primeira noite, após beber muito vinho num restaurante italiano no Joordan, acordei lá pelas quatro da manhã com o nariz entupido. Fui ao pequeno banheiro fazer xixi e o vaso oscilava pra lá e pra cá, bem devagar. Me senti ainda tonto. “Que diabo! Barco atracado em pier balança?”, pensei. Não consegui abrir a janela do quarto, que dava para a água e fiquei sufocado. Saí para o corredor sem pensar e fui até a máquina de bebidas na portaria vazia. Coloquei dois euros e peguei uma Coca Zero. Meu primeiro e redentor gole foi interrompido por um grito seguido de uma risada: era uma hóspede gorda que voltava sozinha para o botel, completamente bêbada, falando inglês com acento britânico – Naked man! Naked man! Ahhhhh… – e no final desse ahhhhh eu já havia retornado nu e constrangido para o quarto, distante uns quinze passos. No café da manhã fiquei com receio de encontrá-la, mas não, deve ter acordado bem tarde, com enxaqueca e sem lembrar-se de nada.