Mirtes II

Desperta com um relógio-cuco marcando cinco horas. O ambiente está escuro e ouve um ruído de passos no piso de cima. Um castiçal com uma vela ao lado da cama, sobre a qual você está deitado. Sente uma presença, alguma coisa ao alcance da mão estendida, entre as sombras das paredes, feito vultos humanos. Devagar, recupera o senso e um pouco da memória. Tenta levantar para descobrir onde está mas não consegue, como se um ímã lhe prendesse à cama. Toca na parede atrás da cabeceira e ela está úmida. Olha para cima e percebe uma inscrição. Pensa em todos os rostos que vira naquela casa antes de apagar, num esforço para aceitar o próprio arrependimento. Solta um grito, chama por alguém. Ouve uma pancada do lado de fora da porta como resposta. Consegue enfim levantar-se e vai até lá, mas está trancada. Do outro lado da peça há um banheiro que cheira mal. Seus dedos grandes e desajeitados tremem quando aperta o nariz para assoar em frente a pia. Molha o rosto. Vê o vaso cheio de fezes.

(…)

“Depois que eu for embora você deve vender a casa”, pediu sua mãe antes de morrer. A imagem do seu rosto magro, debilitada pela quimioterapia, sempre surge quando sente medo. Carregava uma expressão incomum, como se quisesse destruir as recordações materiais para aliviá-lo. Suas roupas ficaram muito tempo intocadas no armário. Evitava abri-lo. Pensou em pedir para alguém jogar tudo fora. Mas certa noite não conseguiu dormir e resolveu enfrentar a tarefa. Os perfumes que ela usava ainda estavam impregnados nas roupas. As blusas de seda, com diferentes estampas, exalavam fragrâncias cítricas e adocicadas, assim como a coleção de lenços. As saias de lã, os casacos de pele e os echarpes, tinham aromas florais, de jasmim, de rosas e gardênias. Em todas as peças, misturado aos perfumes, distinguiu o cheiro dela, de sua pele, e percebeu que aquele armário lotado era a reminiscência mais difícil de suportar. Quando finalmente vendeu a casa, pediu aos futuros moradores que dessem um destino para todos os pertences. Guardou apenas o vestido de linho pêssego que ela usou no último aniversário. Pendurou-o em seu roupeiro, na casa de sua avó, e aquilo passou a representar a única distância entre viver e estar morto.

Trechos da novela inédita “Os Pés do Pai”, do autor.

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