Mirtes
De cima, a cidade de Mirtes não se consegue ver. Situada num vale e rodeada de montanhas rochosas, permanece oculta em suas vielas escuras, de casas barrocas. Há muitas estradas sinuosas que descem até lá. Pode-se encontrar um bando de bêbados remexendo em monturos de ferro-velho, ou uma concentração de lixo, capaz de bloquear o caminho. Algumas, sem bugigangas ou carroças abandonadas, são exclusivas para os pedestres. Construídas antes da fundação da cidade, as Avenidas Imperiais contornam desfiladeiros, proporcionando a melhor paisagem da região. Grandes pórticos de pedra, em forma de arco, recepcionam os visitantes em todas as entradas. A antiga Mirtes tornou-se intransponível. Os guardas, com suas armas, e também a população civil, recostavam-se nas trincheiras, atrás dos pórticos ou em pontos estratégicos. Atiravam nos invasores quando eles desciam as estradas. Essa posição privilegiada de defesa preservou a sua estrutura original de ruas e prédios. Manteve intacto o mapa psicológico dos habitantes.
– É a cidade em que se entra por cima! – bradou o tenente português Rivadávia de Albuquerque, ao fundar a praça circular que daria origem à cidade. Caçado pelo crime de deserção, embrenhou-se no vale com seu pequeno exército de comparsas. Não abandonou o lugar nem para morrer, tuberculoso, trinta anos após a fundação. Foi sepultado no cemitério municipal da então Vila Nossa Senhora de Mirtes.
(…)
A praça central ainda é o lugar onde se pode escutar, a qualquer hora, pedaços de diálogos. Nos bancos de madeira, no final da manhã, o lamento das beatas marcado por suspiros. A promessa vã dos amantes, à sombra dos ligustros. O burburinho dos camelôs, dos pipoqueiros. À noite, quando as famílias de albinos invadem a praça, é que se transpira real felicidade. Exercitam-se com entusiasmo guiados por suas cabeleiras brancas, sob a tênue luminosidade dos postes. Adaptam-se entre fortuitos transeuntes, testemunhando outros diálogos. O Centro de Tradições descreveria os passeios noturnos dos albinos como um dos costumes mais peculiares da cidade.
(…)
De todos os milhares de habitantes, uma centena não se vê. Habitam a rede de túneis e covas subterrâneas que interligam as fossas e o esgoto. Fora do alcance dos olhos, negociam drogas, pedras preciosas, e planejam sequestros. Os que moram na superfície perguntam-se até quando viverão sobre esse labirinto. Mas continuam, como se o peso de abandonar a cidade pudesse causar um futuro desventurado. Quem comparece todos os dias ao mercado de frutas, percebe no rosto de cada anciã, no olhar dos senhores aposentados, na conversa das velhas tias e viúvas, a certeza de uma idade em extinção. Os infortúnios permitem imaginar que sobreviver em Mirtes seja difícil demais.
Trechos da novela inédita “Os Pés do Pai”, do autor.




janeiro 28, 2011 às 11:01 am
São trechos aleatórios ou é o início? Que vontade de ler o resto…. Publicaí!