Seus rostos não dormem

 

Perla e Juanita saiam da escola de mãos dadas quando as fotografei, com as camisas alvas, saias de pregas com tirantes, os lenços de seda amarrados ao pescoço. Estavam preocupadas em voltar logo para casa no bairro de Vedado. Julio, Pepe e Miguel, que tocavam rumba no bar do Havana Club com alegria e olhos de run, viraram-se ao mesmo tempo para a rua atraídos por una bellísima señora. Seu Felício comprou um saco de laranjas após sair do trabalho na fábrica de charutos Partagás, e sentou num boteco de Habana Vieja para uma longa dose, como faz todo final de tarde. Dona Santa, na sacada, olhava para a rua a espera do filho mais velho que foi comprar fermento para o bolo. Dona Conceição, com seu melhor vestido florido, descansava na entrada do cemitério Colón após uma tarde de abandono e silêncio. Dona Bella, que não gostava do movimento dos turistas e suas câmeras fotográficas em passagem permanente na porta da sua casa, falava alto frases sem sentido como se organizasse um exército após a trégua. Mirassol veste a mesma saia roxa nos dias em que se prostitui para engordar o salário de professora na Escuela Primaria Julio Antonio Mella. E são todos eles tão íntimos, ao mesmo tempo inusitados, que sigo inventando seus nomes, misturando os motivos, decifrando as faces. Seus rostos não dormem, não morrem, e me olham pela porta, penetrando insistentes durante a vigília e o sono.

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