Viagem da janela

Janela de inverdades. Conto segredos nos teus ouvidos, todos os dias, sentado de costas em frente ao computador. Golpes rápidos, bofetadas de puro espanto. A luz do monitor reflete nos vidros, ilumina imagens invertidas, como um circo de informação e gente, e não mais identifico o que é tela, o que é janela. Vezenquando combato o vício da síncope diária com carícias, e a janela retribui com belos desenhos e alegres cotidianos. Nas noites de devastação do espírito, mesmo sem olhar através dos vidros, sinto o mau presságio, como se a janela preparasse uma tragédia – leve brisa adentro. Aguço o ouvido, sons de motos e pássaros. Tom Waits atravessa a sala na intensidade de um trem. Há uma pessoa sentada lá fora que sempre surge quando estou sozinho. Outras apenas passam para nunca mais voltar. Imagino a próxima exposição de luz. Sol, chuva, reflexos dos faróis dos carros espelhados no youtube. Hoje não trabalhei, viajei a noite toda pelo interior da Toscana, sentado. Bebendo Uccelliera Brunello di Montalcino.

Uma resposta para “Viagem da janela”

  1. “Tom Waits atravessa a sala na intensidade de um trem”
    que lindas evocações, em palavras, imagens e sons

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