Descendo a Tramuntana
Parei o carro no povoado de Pollença, na Ilha de Maiorca, para um lanche rápido. Pelas ruas estreitas, com blocos de pedra e casario em cores amarelas, procurei um local razoável. Escolhi uma padaria, com magníficos sanduíches, cujo restaurante abria-se para um jardim interno, de reminiscências árabes. Através das janelas do lugar, observei a perspectiva dos telhados a afunilar contra as montanhas. Na estrada outra vez, subi a serra da Tramuntana em direção ao Monastério de Lluc, entre oliveiras centenárias e a companhia das cabras, a tilintar suas sinetas no acostamento. Deixei a rota paralela à costa e a dificuldade do trajeto era proporcional ao espetáculo do entorno. O traçado da estrada fora adaptado às singulares formas da pedra erodida. Gargantas, cavernas, penhascos desfilavam pelas janelas do carro, enquanto descia a Tramuntana. Antes de vencer os últimos metros do trajeto, já envolvido em um engarrafamento monstruoso, um guarda me interpelou: – Adelante es solo para autobuses – e estacionei o carro ali mesmo, completando as últimas curvas a pé. Comecei, então, a ouvir o som dos violoncelos, dos clarinetes sublimes a ecoar entre os rochedos. Em Torrent de Pareis, no meio de muita gente, atravessei um túnel escavado na pedra. A música tornou-se mais intensa. Ao sair do outro lado – onde uma orquestra tocava – estava em um vale, rodeado pelos monólitos gigantes. Na desembocadura de uma fenda, que tem sua apoteose quando, remansada, chega ao mar. Corri até a pequena praia, cor verde-esmeralda, à esquerda do palco e da orquestra. Já descalço, atravessei devagar o piso de seixos e mergulhei no mar Mediterrâneo. Fiquei boiando, a ouvir Chopin, enquanto a luz do sol de fim de tarde alaranjava os paredões de calcário.




agosto 26, 2010 às 6:08 pm
que lindo