Cidade implausível
Qualquer cidade faz sentir saudade do que não mais existe. Em Manhattan, a oficina do bombeiro hidráulico e a lojinha de bebidas da vizinhança deram espaço às galerias de arte, às delicatessens de luxo e às butiques de grife parisiense, operando sob aluguéis impraticáveis. Na Broadway ou em Gramercy Park, onde se podia encontrar Paul Newman comendo um sanduíche, ou muito antes Greta Garbo com seu chapelão, vê-se agora pessoas sem charme falando aos gritos, em frente a uma fachada world style de Donald Trump. Há menos poetas e mais desenhistas de moda, menos visionários e mais curadores de arte deslumbrados. Menos privacidade em meio à multidão entrincheirada no Metropolitan, nas ruazinhas transversais do East Village entupidas de carros, nas longas filas de almoço de qualquer restaurante ruim de Downtown. Mas Nova York ainda é a mesma no Central Park, onde se pode passear sem pressa como antes e apreciar as torres do edifício da Madonna surgindo detrás das árvores. É a mesma dentro daquele velho e desconhecido restaurante vietnamita do Chelsea, ao qual se chega meio sem querer. Até o skyline da cidade, visto da ilha de Ellis, ainda é o mesmo, se imaginarmos que o imponente WTC não passou de delírio arquitetônico. Manhattan seguirá sua vocação vertical, obrigada a crescer para o céu pela ausência de qualquer outra direção. E o medonho manto de neblina que sempre desce de Nova Jersey continuará a esconder a luz da tarde, isolando os escritórios mais altos, numa iminente sensação de fim de mundo.
‘‘É um milagre que Nova York funcione. Se pensar bem, a cidade é implausível.’’ E. B. White

