Múmia de tamancos vermelhos

Postado em Inglaterra, Londres com as tags , , em Agosto 20, 2009 por flaviowild

Múmia no British Museum

Visitei uma exposição no British Museum de peças arqueológicas da antiga Mesopotâmia. Lá pelas tantas, surgiu uma múmia. Morreu em combate há três mil anos e seu corpo foi preservado dentro de uma camada de âmbar. Estava de lado, com a bundinha pra cima. E dava até para ver o pinto. A testa descascada como um caroço de abacate, uma das mãos tapando o rosto. Parecia iluminada pela cor laranja do âmbar. Em pé, um rapaz estranho de tamancos vermelhos e calça marrom desenhava o corpo. Quando voltei depois de visitar toda a exposição, encontrei o rapaz ainda lá, agachado encarando os genitais. Passei por trás dele para espiar o desenho. Era muito bom! Construía uma história em quadrinhos protagonizada pela múmia. Acompanhei o desfecho: “levantou-se, quebrou o vidro da vitrine e correu pelas salas, aterrorizando todos. Dominou os guardas que se aproximaram, tomando-lhes as armas, e assaltou a biblioteca na entrada do museu! Mas não conseguiu escapar pela porta eletrônica, pois tinha encravado nas costas um pedaço da lança de metal. Foi imobilizado por um homem gordo e forte e se despedaçou…” Como recompensa pela minha curiosidade, fui presenteado com a última página da história.

Moça olhando Miró

Postado em Espanha, Maiorca com as tags , , em Agosto 13, 2009 por flaviowild

  Península de Formentor

Dirigir pela estrada sinuosa que leva à ponta da península de Formentor é uma aventura. O caminho é muito estreito e não há acostamento. Qualquer vacilo do motorista pode fazer o veículo despencar dezenas de metros até o mar. Fiquei tenso! A paisagem era deslumbrante mas a altura provocava vertigem. O calor era muito forte e suava até nas palmas das mãos. Decidi não olhar mais para os lados. Os carros que voltavam pela outra pista davam a impressão de que não conseguiriam passar, buzinavam e percebi que dirigia quase sobre a faixa amarela. Numa curva um dos pneus saiu fora do asfalto fazendo saltar pedregulhos. Controlei o carro com esforço e segui, meio tonto, até o farol no fim do caminho. Estacionei e senti um forte alívio, sem querer pensar no trajeto de volta. Ao subir no terraço, em frente ao farol, avistei uma bela moça de vestido azul que olhava a imensidão apoiando-se na balaustrada. Imóvel, como se apreciasse uma tela de Miró. Puxei conversa e descobri que ela estava sozinha. Morava na cidade de Palma e me pediu uma carona. A volta prometia ser ainda mais perigosa: a paisagem, a estrada e aquele par de coxas à mostra no banco do lado.

Brasileiros na neve

Postado em Canadá, Toronto com as tags , , em Agosto 12, 2009 por flaviowild

À beira do lago Ontário

Caminhava no píer à beira do lago Ontário quando começou a nevar. O lugar estava deserto e os galhos secos das árvores rapidamente esbranquiçaram. Andei rápido pois o vento que soprava do lago era muito frio. Então surgiram dois homens ao meu lado, com gorros de lã que tapavam o rosto, apenas os olhos à mostra. Caminhavam seguindo o meu ritmo. De início achei que era alguma brincadeira. “Where are you going man?”, um deles perguntou, em tom grave, oferecendo um cigarro. “I don’t smoke”, respondi, aumentando o passo. Seguiram mais um pouco falando coisas incompreensíveis e então agarraram os meus braços. Levaram-me até a beira d’água e ameaçaram me jogar: um deles anunciou o assalto! Tinha pouco dinheiro na carteira e ofereci tudo, assustado. Não quiseram o dinheiro mas pegaram o meu passaporte.“Ele é do Brasil”, o outro cochichou em português, com cara de espanto. Olharam-se constrangidos e saíram correndo, sem dizer mais nada. Sentei num banco e fiquei alguns minutos imóvel, olhando a neve. Feliz e triste por ser brasileiro.

Cuidado com o hamish!

Postado em Escócia, Loch Ness com as tags , , em Agosto 9, 2009 por flaviowild

Hamish, interior escocês

Atravessar o conjunto de sinistras montanhas chamado Glen Coe, durante a viagem ao Loch Ness, só fez aumentar a expectativa sobre o lendário monstro. Dizem que, após alguns copos de uísque escocês, é possível ver o bicho com o pescoço para fora d’água. Em meio ao caminho e a histórias de antigos reis, o ônibus parou para o lanche dos turistas. Ao descer, fui olhar um hamish. Ele veio a mim com aquela cara de Elton John. Quase pude ouví-lo cantando “Rocket man“. Achei-o simpático, tranquilo até, e mexi na sua franja dourada para poder ver os olhos. O animal ficou furioso: mostrava os dentes e babava, tentou derrubar a cerca e bateu com os chifres no meu ombro! Pude então ver seus olhos de raiva. Muita gente saiu do restaurante para acompanhar a confusão. O hamish não parava, agitado, arfando. Um homem o laçou pelo pescoço e conseguiu afastá-lo. Mas para quem esperava encontrar o monstro de Loch Ness, este havia chegado antes, sem nenhum gole de uísque.

Rolando perucas

Postado em Argentina, Buenos Aires com as tags , , em Agosto 1, 2009 por flaviowild

Vitrine em Pallermo Viejo

Entrei num antiquário do bairro de Pallermo Viejo. Ao meu lado, uma mulher experimentava uma peruca. Olhou-se no espelho e me perguntou o que eu achava. Tentei ser gentil: “Muy linda, señora”. “Usted es un mentiroso! Esta horrible!”, ela retrucou. Continuei a olhar os chapéus e os óculos estranhos em volta, fingindo não ter ouvido. Aliás, tudo era muito estranho naquela loja, a começar pela atendente, que aparentava mais de 80  anos e ficava sentada numa cadeira de balanço, apenas olhando os clientes. Se resolvesse comprar alguma coisa, queria ver como a velhinha faria para processar a antiga caixa-registradora. A cliente trocou de peruca e de novo voltou a me perguntar. Não sei ser grosseiro, mas resolvi dizer: “Se quedó horrible, señora.” Ela deu um grito de satisfação, enrolou o cachecol no pescoço e disse à atendente que não precisava embalar, pois sairia usando a peruca. Então a velhinha chamou: “Martin, viene!” Surgiu um senhor muito magro, que parecia ter mais de 90 anos e vestia um pijama. Errou o troco e a cliente reclamou, mas ele não voltou atrás e disse que estava certo. A mulher arrancou a peruca da cabeça e atirou-a contra a vitrine, fazendo balançar uma gaiola de passarinhos. Por segurança, não comprei nada, apesar do nome da loja querer provar o contrário.

Acordei em Marte

Postado em Havaí, Maui com as tags , em Julho 15, 2009 por flaviowild

Vulcão Haleakala

Desci na cratera do vulcão extinto Haleakala. A três mil metros de altitude e do tamanho da ilha de Manhatan, foi usada para treinamento dos astronautas que foram à lua e leva dois dias de caminhada para ser vencida. No início, andei com todo o fôlego, distraído com as plantas curiosas que nascem na aridez, a perspectiva de tonalidades avermelhadas, os cones por onde saía a erupção. De repente, fiquei sem ar. Senti que não ia conseguir voltar. Sentei na terra cinza, sentindo o frio que aumentava, e entrei em pânico. “Vou morrer aqui”, pensei. Foi quando surgiram duas sombras, movendo-se devagar e sem foco: era um casal de Miami. Eles me enrolaram num cobertor, tentaram me acalmar e convidaram para seguir com eles, prometendo ir devagar. Estavam preparados, com barraca e sacos de dormir nas mochilas. Não tive dúvida, era ir ou ficar pra congelar. Quando anoiteceu, já no meio do caminho, armamos a barraca e fizemos uma fogueira, que teimava em apagar pela forte ventania. Nuvens entraram no vulcão e a noite ficou turva. Ao amanhecer, o sol dissipou o nevoeiro e a temperatura aumentou muito. Foi como acordar em Marte.

Repolho na praia

Postado em Cuba, Varadero com as tags , em Julho 9, 2009 por flaviowild

Praia de Varadero

Viajar no sistema all inclusive é divertido. Você se hospeda e esquece a dieta rotineira a fim de todos os tipos de bebidas, comidas e sorvetes. Beber quantos mojitos quiser no intervalo de cada mergulho, daiquiris à beira da piscina, almoçar duas ou três vezes ou quanto couber. Nos dois primeiros dias mandei ver porque tudo é uma festa em Varadero. No terceiro estava com preguiça de voltar ao hotel e resolvi almoçar no restaurante da praia. Peixinho grelhado, batatas souté, alface tomate e repolho. O chopinho direto da torneira. Meia hora depois, um alien queria saltar pra fora do estômago. Pensei em resolver o problema dentro d’água, mas seria muita sacanagem. Então, fui caminhando para o hotel meio curvado a segurar o bicho louco. Esperei o elevador, subi, dei a vez pro velhinho que estava na minha frente e cheguei na porta do quarto quase parindo. Introduzi o cartão magnético e nada, de novo e de novo e a porta não abriu. Olhei para a escada de incêndio e decidi que seria ali. Mas chato isso, desagradável, eu poderia ser flagrado com a mão na massa. Respirei fundo, contraí os intestinos e desci à recepção para trocar o cartão. A funcionária disse que o meu check-out fora antecipado por engano, por isso o maldito não abria. E conversa vai e conversa vem e não consegui mais segurar. Naquela linda tarde de sol não voltei para a praia, com medo de que o repolho voltasse a atacar.

Monges usam cuecas?

Postado em Kanchanaburi, Tailândia com as tags , em Julho 9, 2009 por flaviowild

Monge no Tiger Temple

Monge é aquele sujeito que mora num mosteiro, se isola da sociedade e leva uma vida austera. Sempre pensei que todos fossem assim, mas os monges tailandeses do Tiger Temple surpreenderam. São tatuados, os olhos maquiados, têm celulares com câmera digital e tela touch screen e gostam de fotografar só as mulheres. Paguei 500 bahts pelo ingresso que dá direito ao contato íntimo com os tigres. É possível passar a mão na barriga, acariciá-los, beijá-los e até pegar os rabos. Um dos monges me sugeriu tocar nas bolas do macho, mas declinei. Outro monge disse que eu poderia beijar o focinho do animal e deu um longo beijo para demonstrar. Os tigres estavam estranhamente quietos e, cá entre nós, pareciam chapados. Dei o beijo. Foi como beijar um cachorro. Outras pessoas foram convidadas a fazer o mesmo, e, para cada um, o monge fazia a demonstração. Depois que todos saíram, vi o religioso limpar a boca com o hábito cor-de-laranja. E o despreendimento do espírito? Não sei se monges usam cuecas, mas no Tiger Temple devem vestir Calvin Klein.

Dormir em botel

Postado em Amsterdã, Holanda com as tags , em Julho 6, 2009 por flaviowild

Botel em Amsterdã

Hospedei-me em um botel por três dias e me impressionou dormir num quarto que balança, como se viajasse parado. Na primeira noite, após beber muito vinho num restaurante italiano no Joordan, acordei lá pelas quatro da manhã com o nariz entupido. Fui ao pequeno banheiro fazer xixi e o vaso oscilava pra lá e pra cá, bem devagar. Me senti ainda tonto. “Que diabo! Barco atracado em pier balança?”, pensei. Não consegui abrir a janela do quarto, que dava para a água e fiquei sufocado. Saí para o corredor sem pensar e fui até a máquina de bebidas na portaria vazia. Coloquei dois euros e peguei uma Coca Zero. Meu primeiro e redentor gole foi interrompido por um grito seguido de uma risada: era uma hóspede gorda que voltava sozinha para o botel, completamente bêbada, falando inglês com acento britânico – Naked man! Naked man! Ahhhhh… – e no final desse ahhhhh eu já havia retornado nu e constrangido para o quarto, distante uns quinze passos. No café da manhã fiquei com receio de encontrá-la, mas não, deve ter acordado bem tarde, com enxaqueca e sem lembrar-se de nada.